Abordagem de Esquemas de Young

De acordo com Beck, um esquema é uma estrutura cognitiva para selecionar, codificar e avaliar os estímulos que têm influência sobre o organismo […] Com essa matriz de esquemas, o indivíduo consegue se orientar em relação ao tempo e ao espaço e categorizar e interpretar as experiências de uma maneira que tenham sentido.

No campo da psicopatologia, o termo “esquema” tem sido aplicado a estruturas com conteúdo idiossincrático altamente personalizado que são ativadas durantes transtornos como a depressão, ansiedade, ataques de pânico e obsessões, e se tornam influentes […] Sendo assim, na depressão clínica, por exemplo, os esquemas negativos estão em ascendência, resultando em um viés negativo sistemático na interpretação e na lembrança de experiências, bem como nas predições de curto e longo prazo, enquanto esquemas positivos se tornam menos disponíveis. É fácil que pacientes deprimidos vejam os aspectos negativos de um evento, mas é difícil de ver os positivos. Eles conseguem se lembrar de eventos negativos com muito mais prontidão que dos positivos. Eles dão mais peso às probabilidades de desfechos indesejáveis que às dos positivos.

Através da observação clínica, Young identificou um subconjunto de esquemas que ele chama de “esquemas desadaptativos precoces” (early maladaptative schemas – EMSs). Segundo a abordagem de esquemas de Young, as crianças aprendem a construir a realidade por meio de experiências relativamente precoces com o ambiente, especialmente envolvendo pessoas significativas. Os EMSs provavelmente se desenvolvem quando o ambiente não atende às necessidades fundamentais de segurança, estabilidade ou previsibilidade, amor, cuidado e atenção, aceitação e elogio, empatia, limites realistas e validação de necessidades que a pessoa sinta. Às vezes, essas primeiras experiências levam as crianças a aceitar atitudes e crenças que posteriormente se mostram mal-adaptativas. Por exemplo, uma criança pode desenvolver o esquema de que, não importa o que faça, seu desempenho nunca será bom o suficiente. Esses esquemas geralmente ocorrem fora da consciência e podem permanecer adormecidos até que um evento (por exemplo, ser demitido do emprego) os estimule. Uma vez que o esquema é ativado, o paciente classifica, seleciona e codifica a informação de forma que o esquema de fracasso seja mantido. Sendo assim, os EMSs predispõem os pacientes deprimidos a distorcer eventos de forma característica, levando a uma visão negativa de si mesmos, do ambiente e do futuro.

Os EMSs têm várias características definidoras que são:

  1. Verdades a priori em relação à própria pessoa e/ou ao ambiente;
  2. Autoperpetuantes e resistentes a mudanças;
  3. Disfuncionais
  4. Muitas vezes desencadeados por alguma mudança ambiental (por exemplo, perda de um emprego ou de um companheiro);
  5. Vinculados a alto níveis de afeto quando ativados;
  6. Geralmente resultam de uma interação entre o temperamento inato da criança e experiências disfuncionais do desenvolvimento com familiares ou cuidadores.

Quando muitos EMSs se desenvolvem e estão profundamente arraigados, o paciente tem uma atitude evitativa ou tende a se apegar à supercompensação para os EMSs, como é provável em pacientes com depressão crônica, o conceito adicional de “modos de esquema” ou “modos” é útil em termos terapêuticos. A noção de Young de modo é semelhante a um estado do ego. O modo é definido como “os esquemas ou operações dos esquemas que estão em atividade para um indivíduo, sejam eles adaptativos ou mal-adptativos”. Um modo disfuncional é ativado quando esquemas mal-adaptativos ou respostas de enfrentamento específicas irromperam em emoções aflitivas, respostas/ evitativas ou comportamentos de autossabotagem que tomam conta e controlam o funcionamento do indivíduo em um determinado momento. A pessoa também pode passar de um desses modos disfuncionais; quando essas mudanças acontecem, diferentes esquemas ou respostas de enfrentamento, que estavam adormecidos, tornam-se ativos. As mudanças rápidas são chamadas “modos que viram”. Young e colaboradores identificaram quatro tipos de modos: Modos de criança, Modos de enfrentamento mal-adaptativo, Modos de pais disfuncionais e Modo do adulto saudável. Este último é a parte saudável e adulta do self que cumpre uma função “executiva” com relação aos outros modos. O Adulto Saudável ajuda a satisafazer as necessidades emocionais básicas da criança. Construir e fortalecer o Adulto Saudável do paciente para trabalhar de forma eficaz com os outros modos é o objetivo global do trabalho com modos. Isso possibilita aumentar o controle sobre a capacidade de resposta da pessoa.

Modo de criança Descrição Esquemas comumente associados
Criança vulnerável Experimenta afeto disfórico ou ansioso, especialmente medo, tristeza, desamparo, quando está em contato com esquemas associados. Abandono, Desconfiança/Abuso, Privação Emocional, Defectividade,  Isolamento Social, Dependência/  Incompetência, Vulnerabilidade a Danos ou doenças, Emaranhamento/Self Não-Desenvolvido, Negatividade/ Pessimismo.
Criança Enraivecida Libera raiva diretamente em resposta a necessidades  fundamentais não-satisfeitas ou  tratamento injusto relacionado  a esquemas centrais. Abandono, Desconfiança/Abuso, Privação Emocional, Subjugação (ou, às vezes, qualquer desses esquemas   associados à Criança Vulnerável).
Criança Impulsiva/Indisciplinada  Age impulsivamente, segundo desejos imediatos de prazer,   sem considerar limites nem as necessidades ou sentimentos de outras pessoas (não está ligado  a necessidades centrais). Merecimento, Autocontrole/ Autodisciplina Insuficientes.
Criança feliz Sente-se amada, conectada, contente, satisfeita. Nenhum. Ausência de esquemas  ativados.

 

Modos de Enfrentamento Mal-adaptativos    Descrição
Rendição Complacente Adota um estilo de enfrentamento baseado em complacência e dependência.
Protetor distante  Adota um estilo de enfrentamento de retraimento emocional, desconexão,     isolamento e evitação comportamental.
Supercompensador Adota um estilo de enfrentamento  caracterizado por contra-ataque e controle.   Pode supercompensar através de meios semiadaptativos, como trabalho em excesso.

 

Modo Parental Disfuncional Descrição  Esquemas comumente associados
Pai/Mãe Punitivo/Crítico Restringe, critica ou pune a si ou a outros.  Subjugação, Caráter Punitivo,   Defectividade, Desconfiança/   Abuso (como abusador).
Pai/Mãe Exigente   Estabelece expectativas e  níveis de responsabilidade altos em relação aos outros;  pressiona a si ou outros para cumpri-los.  Padrões inflexíveis, Autossacrifício.

 

A terapia focada no esquema foi criada para tratar pacientes com os transtornos de personalidade borderline, narcisista, dependente, obsessiva-compulsiva, passivo-agressiva e histriônica. As técnicas de tratamento focadas no esquema também têm sido utilizadas para prevenir recaídas em depressão, nos transtornos de ansiedade, no abuso de substâncias e no tratamento de abuso físico e psicológico, além dos transtornos de alimentação e dor crônica.

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