Tratamento para Abuso e Dependência de Drogas

O que é o Abuso e a Dependência de Drogas?

Os critérios diagnósticos do abuso e da dependência de drogas representam um grupo de sinais e sintomas comportamentais e fisiológicos que provém de um padrão do uso continuado de drogas, apesar dos problemas importantes que elas causam. Para receber um diagnóstico de abuso de drogas, o indivíduo deve cumprir um ou mais dos quatro critérios listados do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR), por um período de 12 meses, e não pode cumprir atualmente nem ter cumprido recentemente um diagnóstico de dependência de drogas. Os critérios para abuso são formulados para enfocar as conseqüências negativas do uso de drogas e não o padrão de uso em si, a tolerância ou abstinência, que são o foco do diagnóstico de dependência.

Para receber um diagnóstico de dependência de drogas, o indivíduo deve ter apresentado três ou mais dos sete critérios listados em um período de 12 meses. Embora a tolerância e a abstinência sejam listadas em primeiro lugar entre os sete critérios, nenhum deles é necessário para um diagnóstico de dependência. Só é necessário cumprir três dos critérios listados por um período de 12 meses para satisfazer o diagnóstico. A expressão “com dependência fisiológica” pode ser usada para especificar diagnósticos nos quais houve tolerância ou abstinência, e a expressão “sem dependência fisiológica”, para especificar aqueles nos quais elas não estão presentes. A gravidade é influenciada pela freqüência de uso, quantidade de droga usada e forma de administração, entre outros fatores.

Critérios do DSM-IV-TR para Abuso de Substâncias:

A. Um padrão mal-adaptativo de uso de substância levando a um prejuízo ou sofrimento clinicamente significativo, manifestado por um (ou mais) dos seguintes aspectos, ocorrendo dentro de um período de 12 meses:

1. Fracasso em cumprir obrigações (por exemplo, repetidas ausências ou fraco desempenho ocupacional relacionados ao uso de substância; ausências, suspensões ou expulsões da escola relacionadas à substância; negligência no cuidado dos filhos ou dos afazeres domésticos);

2. Uso recorrente em situações que trazem perigo físico (por exemplo, dirigir um veículo ou operar uma máquina quando prejudicado pelo uso de substâncias);

3. Problemas legais decorrentes da substância (por exemplo, detenções por conduta desordeira, relacionada à substância);

4. Uso continuado apesar das conseqüências (por exemplo, discussões com cônjugue acerca das consequências ou da intoxicação, lutas corporais).

B. Os sintomas jamais satisfizeram os critérios para dependência de substância para esta classe de substância.

Os critérios para abuso de substâncias não incluem tolerância, abstinência ou um padrão de uso compulsivo.


Critérios do DSM-IV-TR para Dependência de Substâncias:

Um padrão mal-adaptativo de uso de substância, levando a prejuízo ou sofrimento clinicamente significativo, manifestado por três (ou mais) dos seguintes critérios, ocorrendo a qualquer momento no mesmo período de 12 meses:

1. Tolerância (necessidade de quantidades progressivamente maiores da substância para adquirir a intoxicação ou efeito desejado e/ou acentuada redução do efeito com o uso continuado da mesma quantidade da substância);

2. Abstinência

3. A substância é frequentemente consumida em maiores quantidades ou por um período mais longo do que o pretendido;

4. Desejo ou esforços mal-sucedidos no sentido de reduzir ou controlar o uso da substância;

5. Muito tempo é gasto para a obtenção da substância, na utilização da substância ou na recuperação de seus efeitos;

6. Atividades sociais, ocupacionais ou recreativas são abandonadas ou reduzidas em virtude do uso da substância;

7. O uso da substância continua, apesar da consciência de ter um problema físico ou psicológico persistente ou recorrente que tende a ser causado ou exacerbado pela substância (por ex., uso atual de cocaína, embora o indivíduo reconheça que sua depressão é induzida por ela, ou consumo continuado de bebidas alcoólicas, embora o indivíduo reconheça que uma úlcera piorou pelo consumo de álcool).


Quais as causas para o Abuso e a Dependência de Drogas?

· Reforço comportamental. Os efeitos positivos das substâncias psicoativas reforçam o comportamento de uso das drogas. O reforço e outros princípios de aprendizagem são determinantes fundamentais do uso, do abuso e da dependência de drogas. Dentro desse modelo conceitual, o uso de drogas é considerado um comportamento normal e aprendido, situado em um espectro de freqüência que vai desde padrões de pouco uso e poucos problemas até o uso excessivo e muitos efeitos negativos, incluindo a morte. Os indivíduos não precisam ter quaisquer características excepcionais ou patológicas para desenvolver abuso ou dependência de drogas.

· Fator biopsicossocial. Características claramente genéticas ou adquiridas (por exemplo, história familiar de dependência de substâncias ou de outros transtornos psiquiátricos) pode afetar a probabilidade de desenvolver abuso ou dependência (fatores de risco).

O modelo cognitivo de Beck sugere que experiências durante o desenvolvimento levam o desenvolvimento de crenças nucleares (esquemas) que deixam o indivíduo predisposto a vulnerabilidade psicológica (fator de risco). A vivência de situações adversas podem ativar essas crenças nucleares negativas deixando a pessoa vulnerável emocionalmente; a experimentação da droga com o desenvolvimento do comportamento de uso dá origem a crenças adictivas relacionadas às substâncias que dão permissão para sua utilização (por exemplo, “a droga trará alívio para o tédio, tensão, ansiedade e depressão”; “a droga trará prazer e excitação”). Desse modo, os esquemas negativos do indivíduo acabam se potencializando com o uso da substância, o que por conseguinte reforça o ciclo negativo do uso continuado.

Influências sociais (p. ex., colegas, trabalho, cultura e sociedade) também aumentam as chances do indivíduo desenvolver um transtorno do uso de drogas.


Tratamento do Abuso e da Dependência de Drogas

O tratamento cognitivo-comportamental e comportamental para substâncias psicoativas apresenta evidências empíricas comprovadas da sua eficácia. O tratamento visa ajudar na reorganização dos ambientes físico e social do usuário. O objetivo é reduzir sistematicamente a influência do reforço derivado do uso da droga e do estilo de vida relacionado ao abuso e aumentar a freqüência do reforço derivado de outras atividades mais saudáveis, principalmente as incompatíveis com o uso continuado. Esses objetivos devem ser quantificáveis para que o progresso possa ser visualisado no papel. Devem ser definidas metas de mudança nas áreas de prioridade listadas no plano de tratamento e classificadas como objetivos primários ou secundários de mudança de comportamento (p. ex., realizar três atividades de lazer cada semana, durante horários de alto risco).

A Terapia Cognitivo-Comportamental apresenta os seguintes objetivos no tratamento da dependência química: (a) capacitar o paciente a examinar a sequência de acontecimentos que levam ao comportamento adicto e a explorar as crenças básicas envolvidas nesse comportamento; (b) ajudar o paciente a identificar como concede permissão para o uso da droga; (c) ajudar o paciente a construir um sistema de controle aplicável no enfrentamento de impulsos de comportamentos adictos.

Na etapa de avaliação, o terapeuta irá coletar informações detalhadas sobre o uso de drogas, avaliar a prontidão para o tratamento e avaliar o funcionamento psiquiátrico, situação ocupacional/profissional, interesses de lazer, apoios sociais atuais, problemas sociais e familiares e questões legais. Outras informações como histórico familiar, aprendizagens, experiências antigas que contribuem para seus problemas atuais e suas estratégias de enfrentamento cognitivas, afetivas e comportamentais para enfrentar suas crenças disfuncionais (esquemas) são levantadas para a conceitualização do caso e a elaboração do plano de tratamento.


Pelo menos quatro modelos de intervenção comportamental e cognitivo-comportamental são usados no tratamento de drogas.

  • O primeiro é a terapia cognitivo-comportamental de prevenção de recaída, que já se mostrou eficaz com cocaína, metanfetamina e outros tipos de transtornos de uso de drogas. Geralmente, essa abordagem implica treinamento e análise funcional, através da qual os pacientes aprendem a identificar os antecedentes e as conseqüências ambientais que influenciam o uso de drogas. A análise funcional geralmente vem acompanhada do treinamento de habilidades para reorganizar o próprio ambiente com vistas a alterar a probabilidade de usar drogas. Muitas vezes, usam-se estratégias cognitivas para identificar e modificar as expectativas irrealistas em relação ao uso de drogas, para lidar com a fissura e para alterar os padrões de pensamento que aumentem a probabilidade do uso. O treinamento das habilidades sociais muitas vezes é incorporado quando os pacientes usaram drogas para lidar com a ansiedade social ou quando déficits de habilidades específicas limitam seu acesso a outras fontes de reforço mais saudáveis.
  • Em segundo lugar, o manejo de contingências é uma estratégia de tratamento comportamental eficaz, muito usada para tratar da cocaína, de opioides e outros tipos de transtornos de drogas ilícitas. Com o manejo de contingências, as conseqüências que reforçam e punem são usadas sistematicamente para aumentar a abstinência do uso de drogas e melhorar outros objetivos terapêuticos, como freqüência ao tratamento ou aderência à medicação.
  • Terceiro, a entrevista motivacional, uma intervenção eficaz para bebedores-problema, também tem sido usada com mais freqüência para tratar o uso de drogas ilícitas. A entrevista motivacional é uma intervenção breve, voltada a facilitar a mudança comportamental ao ajudar os pacientes a identificar valores e objetivos pessoais, a examinar se o uso de drogas pode entrar em conflito com esses valores e objetivos e a explorar como resolver qualquer ambivalência ou conflito entre os objetivos e os valores pessoais e o uso contínuo de drogas. A entrevista motivacional é um método para melhorar a entrada e o engajamento em um tratamento mais intensivo.
  • Quarto, a terapia comportamental de casais tem sido eficaz para tratar os transtornos de drogas ilícitas. A terapia geralmente visa à melhoria das habilidades de comunicação. Os casais aprendem a negociar a mudança no comportamento um do outro para que esse comportamento funcione mais como reforço. O aconselhamento comportamental em família também tem mostrado resultados satisfatórios para adolescentes que tenham transtornos do uso de drogas ilícitas, assim como outras intervenções com terapia de família.


Alexandre Alves – Psicólogo Clínico

CRP 05-39637

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