Terapia para Casal

O que é Terapia de Casal?

Terapia de casal (diferenciando-se de terapia “individual” ou “de grupo”) se refere a abordagens clínicas para melhorar o funcionamento de dois indivíduos dentro do contexto de seu relacionamento. Embora a terapia de casal seja única em sua ênfase em uma díade específica, por definição, ela é uma abordagem contextual ao tratamento de dois indivíduos. Sendo assim, os tratamentos bem-sucedidos para problemas do casal têm enfatizado a avaliação e modificação da contribuição de cada indivíduo e sua resposta a interações específicas em seu relacionamento.

Na terapia de casal busca-se identificar onde as interações estão problemáticas e procurar modos de melhorar. O casal torna-se ciente de pontos de vista e modos de interagir e de se comunicar destrutivos para tentar modificá-los. O terapeuta auxilia os parceiros a determinar quais as mudanças desejáveis, sejam no modo de se relacionar, sejam mudanças individuais.


Por que procurar ajuda com a Terapia de Casal?

No Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR), os problemas do casal não representam um “transtorno mental”, sendo relegados à categoria de “outras condições que podem ser foco de atenção clínica” e recebem um “código V”, de “problemas de relação com um companheiro”. Ainda assim, com certeza se pode dizer que os problemas do casal geram tanto sofrimento psicológico e físico quanto muitos, se não a maioria, dos transtornos do DSM-IV-TR. Além disso, os problemas do casal podem iniciar, exacerbar e complicar os transtornos do DSM-IV-TR como a depressão, ou desencadear sua recaída. Os problemas do casal também podem ter um impacto importante sobre os filhos do casal, desencadeando ou exacerbando transtornos externos e internos. Desse modo, não resta dúvida de que os problemas do casal têm conseqüências psicológicas graves e merece atenção terapêutica.


Dentre os motivos mais freqüentes que os casais buscam a terapia de casal estão:

(1) Dificuldade ou ausência de comunicação;
(2) Brigas em excesso;
(3) Falta de habilidade para se expressar de um dos parceiros ou ambos;
(4) Traição sexual ou emocional;
(5) Dificuldades sexuais;
(6) Falta de comprometimento de uma das partes;
(7) Mudanças individuais de um dos parceiros;
(8) Desgaste da rotina;
(9) Agressões, mesmo que disfarçadas de ironia;
(10) Educação dos filhos;
(11) Carreira e dinheiro;
(12) Diferença de valores;
(13) Ciúmes ou insegurança em excesso;
(14) Excesso de controle;
(15) Desconfiança de traição;
(16) Problemas emocionais;
(17) Machismo;
(18) Estresse.


Terapia para Casal – Quais as causas dos problemas do casal?

Os problemas do casal se desenvolvem como resultado de duas influências básicas – o desgaste dos reforços e o surgimento de incompatibilidade.

Desgaste dos Reforços: O “desgaste dos reforços” é o fenômeno no qual os comportamentos que costumavam ser reforçadores começam a ser menos reforçadores com a exposição repetida. Por exemplo, demonstrações de afeto físico podem gerar sentimentos poderosos de carinho e prazer em cada parceiro durante as primeiras etapas de seu relacionamento, mas quando já passaram muitos anos juntos, a propriedade reforçadora desses comportamentos afetivos pode desaparecer. Em alguns casais, esses reforços passam a ser considerados naturais enquanto para outros podem até se tornar aversivos. Em alguns casos, comportamentos que antes eram considerados atraentes, carinhosos ou prazerosos se tornam exatamente os que geram ou aprofundam os problemas do casal.

Incompatibilidades: Assim como acontece com desgaste dos comportamentos reforçadores, podem surgir “incompatibilidades” à medida que os parceiros passam mais e mais tempo juntos. No início do relacionamento, as diferenças em suas origens, seus objetivos e interesses podem ser subestimados ou ignorados. Por exemplo, se o parceiro A prefere economizar dinheiro e parceiro B prefere gastá-lo, essa diferença pode não ficar visível durante o namoro, quando gastar dinheiro é uma experiência tácita de ambos. Se for detectada cedo, talvez essa diferença possa ser considerada “positiva”, no sentido de que cada um é estimulado a ser um pouco mais semelhante ao outro em seus hábitos relacionados a gastos. Ou talvez cada um espere que o outro acabe por encontrar um meio-termo ou passe a fazer as coisas a sua maneira, mas com o passar do tempo essas incompatibilidades e sua relevância para a relação são inevitavelmente expostas. Diferenças que um dia foram percebidas como novidades, interessantes ou desafiadoras podem acabar sendo vistas como impedimentos aos objetivos e interesses pessoais. E, além de qualquer incompatibilidade existente, podem surgir outras, não previstas, com novas experiências de vida (por exemplo, ter filhos, mudar de profissão). Dessa forma, mesmo os casais que inicialmente haviam feito uma avaliação realista de suas diferenças podem descobrir incompatibilidades inesperadas com o passar do tempo.


Terapia para Casal – Como é o tratamento para os problemas do casal?

A terapia para casal pode ser realizada em diversas situações do relacionamento a dois, como noivos, namorados, casados e homossexuais.

Tem havido três formas predominantes de terapia de casal: tratamento com uma abordagem sistêmica, terapia de casal comportamental e terapia comportamental que integra técnicas cognitivas (terapia cognitivo-comportamental com casais). Recentemente, uma nova abordagem ao tratamento dos problemas do casal, chamada de terapia de casal comportamental integrativa, vem apresentando evidências empíricas de uma eficácia mais duradoura e ampla para diversos problemas de casal.

Por mais de duas décadas, o “padrão ouro” para o tratamento de problemas do casal tem sido a terapia de casal comportamental. A terapia de casal comportamental tradicional ensina como aumentar ou reduzir os comportamentos-alvos (intercâmbio de comportamento), a se comunicar de forma mais eficaz (treinamento de comunicação) e a avaliar e resolver problemas (solução de problemas) para melhorar a satisfação geral no relacionamento.

Diferentemente da terapia de casal comportamental tradicional, o foco da terapia de casal comportamental integrativa está na aceitação emocional. Enquanto a terapia de casal comportamental tradicional está voltada à mudança, o objetivo básico da terapia de casal comportamental integrativa é promover a aceitação do outro e de suas diferenças. Em vez de tentar eliminar os conflitos antigos de um casal, um objetivo da terapia de casal comportamental integrativa é ajudar os casais a desenvolver uma nova compreensão das suas diferenças aparentemente irreconciliáveis e usá-las para promover a intimidade, a empatia e a compaixão com o outro. Sendo assim, é possível criar um ambiente para que os parceiros entendam o comportamento um do outro antes de decidir se conseguem modificá-lo. Por meio dessa exploração dos indivíduos, os parceiros podem chegar a um entendimento maior um do outro e sentir mais proximidade emocional, adquirindo assim os sentimentos de amor que antes buscavam solicitando mudanças no comportamento do outro e muitas vezes não tinham sucesso.

Embora haja uma expectativa de “mudança” na terapia de casal comportamental integrativa, esta expectativa difere muito da que está presente na terapia de casal comportamental tradicional, no sentido de qual parceiro e qual comportamento se esperam que mudem. Na terapia de casal comportamental tradicional, a “mudança” envolve somente aumentar-reduzir a freqüência ou intensidade de um determinado comportamento do Parceiro A em resposta a uma queixa do Parceiro B. Na terapia de casal comportamental integrativa, espera-se que a “mudança” terapêutica também envolva uma alteração, por parte do Parceiro B, de sua reação emocional ao comportamento “problemático” do Parceiro A. Quando uma diferença for irreconciliável, a estratégia terapêutica da terapia de casal comportamental integrativa é mudar a resposta do parceiro que está se “queixando”, em vez de direcionar todos os esforços terapêuticos a tentar mudar aquilo que tem sido historicamente um comportamento essencialmente “imutável”.


O protocolo da terapia de casal comportamental integrativa costuma abarcar as seguintes etapas no tratamento:

1. Avaliação: A fase de avaliação compreende pelo menos uma sessão conjunta entre o casal, seguida de sessões individuais com cada um dos parceiros. A fase de avaliação é seguida por uma sessão de feedback durante a qual o terapeuta descreve sua formulação sobre o casal e seus problemas. A sessão de feedback também é usada para descrever os objetivos e o plano de tratamento. Os objetivos da terapia são criar um ambiente na sessão, nos quais os problemas do casal podem ser resolvidos por meio de alguma combinação de técnicas de aceitação e de mudança. São usados também nesse estágio do tratamento instrumentos objetivos de avaliação que auxiliam identificar áreas problemáticas e níveis de desconforto e satisfação do relacionamento.

2. Psicoeducação: Nesta fase os problemas do casal são explicados a partir da “formulação” e os parceiros podem usá-la como contexto para entender seu relacionamento e seus conflitos. A formulação é a forma como o terapeuta concebe e descreve os problemas do casal em termos de diferenças, incompatibilidades e as conseqüentes discordâncias entre os parceiros. Ela se baseia em uma análise funcional dos problemas do casal e tem três componentes básicos: um tema, um processo de polarização e uma armadilha mútua. A formulação possibilita os casais entenderem como seus problemas se desenvolveram e como eles estão sendo mantidos. Ela também dá ao casal uma linguagem com a qual discutir seus problemas e permite que os parceiros se distanciem deles.

3. Técnicas para Construir uma Aceitação Emocional: Geralmente, o tratamento começa com um foco na promoção da aceitação. A exceção é quando os parceiros conseguem trabalhar em conjunto (“a disposição de colaboração”) e ambos querem fazer mudanças específicas em seu relacionamento. Nesse caso, a terapia pode começar com as estratégias de mudança. As três estratégias de construção de aceitação são: Conexão Empática, Distanciamento Unificado do Problema e Construção de Tolerância.

Conexão Empática: É o processo pelo qual os parceiros deixam de acusar um ao outro por seu próprio sofrimento emocional e desenvolvem empatia pela experiência do outro. Eles aprendem a ver as suas frustrações e seu sofrimento emocional a partir de uma nova perspectiva, mais empática e compassiva.
Distanciamento Unificado do Problema: Essa técnica permite aos parceiros “dar um passo atrás” em relação aos seus problemas e os descrever sem fazer acusações – ou responsabilidades pela mudança – a nenhum dos parceiros. Dessa forma, eles fazem o distanciamento unificado de suas interações problemáticas.
Construção da Tolerância: Essa técnica auxilia os parceiros experimentarem uma redução do sofrimento causado pelo comportamento do outro. Eles são estimulados a cessarem os esforços de impedir, evitar ou escapar desses comportamentos “ofensivos” do parceiro. Desse modo, expondo-se ao comportamento sem a luta correspondente, reduzem a sensibilidade a ele e, espera-se, sentem o comportamento “ofensivo” como menos doloroso.

4. Técnicas para Promover a Mudança de Comportamento: Para alguns casais, podem ser indicadas as intervenções para gerar mudanças já no início das intervenções. As estratégias mais usadas para a mudança são: Intercâmbio de Comportamentos e o Treinamento para Comunicação e Solução de Problemas. O principal objetivo do intercâmbio de comportamentos é aumentar a proporção de interações e comportamentos positivos diários de um casal.


Alexandre Alves – Psicólogo Clínico

CRP 05/39637