Os Benefícios do Princípio do “Sentido da Vida” para a Dependência Afetiva

As pessoas que apresentam um sentido especial de transcendência demonstram uma série de vantagens para a sobrevivência se comparadas a outras pessoas que não têm. Tendem a viver mais tempo, melhoram substancialmente a qualidade de vida, ficam menos doentes, enfrentam doenças terminais com maior integridade, criam imunidade a muitos males mentais, perdem o medo da morte e, o que é mais importante, são extremamente resistentes a criar dependências de todos os tipos.

As pessoas que encontraram o caminho da autorrealização movem-se com maior fluidez e não costumam ficar ligadas em bobagens. Não andam procurando alguma coisa para se apegar e se sentirem protegidas. Incorporaram a segurança ao seu disco rígido. Amar uma pessoa assim é maravilhoso, mas assustador, porque ela pode dar a impressão de ser “muito” independente. Um companheiro sem temores assusta os inseguros. A frase “Amo você, mas posso prescindir de você” pode provocar um infarto fulminante em mais de um apaixonado. Os condicionamentos sociais instituíram uma falsa premissa: amor sem medo não é amor. Quando um indivíduo encontra sua autorrealização vocacional ou transcendental, ama com uma paz especial. Existe desejo, mas não dependência.

Podemos destacar dois princípios que fortalecem a independência ou maturidade afetiva nos relacionamentos amorosos. São eles:

1. Autorrealização

Este princípio se refere à capacidade de reconhecer os talentos naturais que possuímos. Aquelas habilidades singulares que surgem espontaneamente de nós mesmos sem tanto alarde nem especializações. Simplesmente estiveram aí o tempo todo e ainda persistem.
A pergunta fundamental é: como saber se estamos desenvolvendo esses talentos? Se as respostas às três perguntas seguintes forem positivas, você está no caminho certo. Caso contrário você tem alguma coisa a rever:

a) Você pagaria para fazer o que está fazendo?

b) As coisas que você gosta de fazer surgiram naturalmente mais do que por aprendizagem?

c) Quando está fazendo o que ama, as pessoas se aproximam de você em vez de se afastarem?

Esse é o talento natural: uma capacidade guiada pela paixão, que vem de dentro e reúne os demais quando aparece. Todos a possuímos, todos podemos alcançá-la, todos estamos destinados a desenvolver nossa capacidade criativa se nos deixarem e se tivermos coragem.

Uma pessoa que encontrou a vocação e sente paixão pelo que faz se torna imune à dependência afetiva porque sua energia vital se abre a outras experiências. Desenvolver os talentos naturais é se abrir a outros prazeres sem descuidar do vínculo afetivo. Se a vocação é levada a um bom termo, a mente se tranquiliza, e as inseguranças desaparecem.

 

2. A Transcendência

Quando acreditamos que estamos participando de um projeto universal e aceitamos sua importância nos colocamos, de forma automática, no plano espiritual. A vida evolui num sentido de complexidade crescente, no qual é possível que sejamos a ponta de lança de uma transformação que ainda não percebemos. Transcender significa ter consciência de que sou muito mais do que acredito ser.

Acreditar que estamos participando de um projeto universal nos faz fortes, nos afasta do mundano e questiona nossa presença no planeta. Os animais não sabem que vão morrer; nós, sim. Muitas pessoas que recorrem à ajuda psicológica ou psiquiátrica buscam alívio para a sua frustração existencial porque se sentem vazios e contam que não encontram um motivo para viver. Exaltar a vida interior ajuda a se desprender dos impedimentos da dependência afetiva, e isso não tem nada a ver com desamor.

 

Por que o princípio do “sentido da vida” gera imunidade à dependência afetiva?

a) As pessoas que adquirem um sentido para a vida conseguem se distanciar das coisas mundanas e adquirem uma visão mais profunda da vida. Em geral, não se apegam tanto às coisas terrenas, incluindo o afeto. Não é que não se interessem pelo material, mas conseguem colocá-lo no lugar que merece.

b) O desenvolvimento dos talentos naturais permite uma expansão da consciência afetiva. Havendo outras formas de satisfação, debilita-se a exclusividade prazerosa pelo companheiro e se promove a independência psicoafetiva. O prazer pela vida também começa a incluir a própria autorrealização.

c) A transcedência permite redimensionar a experiência do sofrimento. Não é que suportamos mais a dor, mas ela se dilui, se situa em outro contexto e ganha um novo significado. As pessoas com uma vida espiritual intensa são mais fortes frente à adversidade e emocionalmente mais maduras. Aprendem a renunciar e a se darem por vencidas quando é necessário.

d) Participar da ideia de um projeto universal dá um sentido especial de pertencimento. A ideia de uma missão pessoal nos exonera de imediato de qualquer dependência afetiva.

Portanto, o princípio do sentido da vida outorga maior riqueza interior e independência psicológica. Seus interesses serão cada vez mais vitais, e mais madura a sua maneira de amar. Sentirá que não haverá tanto medo da perda, e a necessidade de possuir será substituída pela bênção de ter um propósito de vida.


Fonte: Walter Riso – “Amar ou Depender?”

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