Estresse – Características dos Eventos Estressantes

Todos nós sentimos estresse de vez em quando. Somos constantemente pressionados a realizar cada vez mais num tempo curto. A poluição sonora e do ar, os congestionamentos, a violência, o trabalho excessivo estão cada vez mais presentes no nosso dia a dia. Além disso, às vezes enfrentamos grandes acontecimentos estressantes, como a morte de um ente querido ou desastres naturais. A exposição ao estresse pode acarretar emoções incômodas como ansiedade e depressão, podendo também acarretar doenças físicas, tanto leves quanto graves. Mas as reações das pessoas a situações estressantes diferem bastante: diante de uma situação estressante, algumas pessoas desenvolvem sérios problemas físicos ou psicológicos, ao passo que outras diante da mesma dificuldade não desenvolvem problemas, podendo até ver a situação como um desafio interessante.

Mas o que é o estresse? Estresse significa experimentar situações que são percebidas como ameaçadoras a nosso bem-estar físico ou psicológico. Essas situações geralmente são chamadas de estressores, e as reações das pessoas a elas são designadas respostas de estresse.

As situações percebidas como estressantes geralmente incluem-se em uma ou mais das seguintes categorias: eventos traumáticos, eventos incontroláveis, eventos que desafiam os limites de nossa capacidade e nosso autoconceito, ou conflitos internos.


Eventos traumáticos

As fontes mais claras de estresse são os eventos traumáticos, situações de extremo perigo que estão fora da faixa usual da experiência humana. Isto inclui os desastres naturais, tais como terremotos e enchentes; desastres causados pelo homem, tais como guerras e acidentes nucleares, acidentes catastróficos, tais como colisões de automóveis ou aviões; e ataques físicos, tais como estupros ou tentativas de assalto.

Um tipo de situação traumática que lamentavelmente é comum na nossa sociedade é o abuso sexual. Os efeitos do estupro e de outros tipos de violência sexual sobre a saúde física e emocional da vítima são grandes. Segundo Atkinson e colaboradores (2002), diversos estudos constataram que nos primeiros seis meses após o estupro ou outra agressão, mulheres e homens mostram altos níveis de depressão, ansiedade, desolação e muitos outros indicadores de sofrimento emocional. Para algumas pessoas, este sofrimento emocional diminui com o tempo, mas para outras ele é duradouro. Eles ainda dizem que através de um estudo realizado por Burnam e colaboradores (1998), constatou-se que as vítimas de ataques tinham duas vezes mais chances do que as pessoas que não sofreram nenhum ataque de terem um transtorno depressivo, um transtorno de ansiedade ou um transtorno de abuso de substâncias diagnosticável em algum momento após a agressão. Elas eram mais propensas a desenvolverem estes transtornos quando tinham sido agredidas na infância.


Controlabilidade

Quanto mais incontrolável parece uma situação, maior sua probabilidade de ser percebido como estressante. Eventos incontroláveis maiores incluem a morte de um ente querido, demissão do emprego ou doença grave. Uma das razões evidentes pelos quais os eventos incontroláveis são considerados estressantes é que não podemos controlá-los, não podemos impedi-los de acontecer.

Contudo, parece que nossas percepções da controlabilidade dos eventos são tão importantes para nossa avaliação do grau de estresse quanto a controlabilidade real de tais eventos. De acordo com Atikinson e colaboradores (2002), estudos mostram que a ideia de que podemos controlar tais eventos parece reduzir o impacto deles, mesmo que não exerçamos este controle.


Previsibilidade

Poder prever a ocorrência de um evento estressante, mesmo que a pessoa não possa controlá-lo, geralmente diminui a severidade do estresse. Segundo Atkinson e colaboradores (2002), experimentos laboratoriais demonstram que tanto humanos quanto animais preferem eventos aversíveis previsíveis a imprevisíveis. Como explicamos estes resultados? Uma possibilidade é que um sinal de aviso antes de um evento aversivo permite que a pessoa inicie alguma espécie de processo preparatório que reduz os efeitos do estímulo nocivo. Por exemplo, um homem que está prestes a receber uma injeção num consultório médico pode tentar se distrair para reduzir a dor.

Outra possibilidade é que, com o choque imprevisível, não há um período seguro; com o choque previsível, o organismo pode relaxar em certa medida até que o sinal avise que um choque está prestes a acontecer. Um exemplo deste fenômeno na vida real ocorre quando um chefe que costuma criticar o empregado na frente das pessoas está viajando a negócios. A ausência do chefe é um aviso para o empregado que é seguro relaxar. Em contraste, um empregado cujo o chefe o critica imprevisivelmente ao longo do dia e nunca sai da cidade pode sentir-se estressado de maneira crônica.


Desafiando nossos limites

Alguma situações são predominantemente controláveis e previsíveis, mas mesmo assim são experimentadas como estressantes porque nos levam ao limite de nossas capacidade e questionam nossas ideias a nosso próprio respeito. A semana dos exames finais é um bom exemplo. A maioria dos alunos estuda muito mais intensamente durante a semana de exame do que durante todo resto do ano. Algumas pessoas experimentam o esforço físico e intelectual como estressante. Alguns estudantes também acham que os exames testam os limites de seu conhecimento e de sua capacidade intelectual. Mesmo entre estudantes que são capazes de se sair bem nas provas, a possibilidade de falhar pode questionar sua ideia de que são competentes.

Ainda que encaremos de forma alegre e motivada em algumas situações de pressão, elas podem ser estressantes. O casamento é um bom exemplo; ele envolve muitas adaptações. As pessoas muitas vezes são desafiadas aos limites de sua paciência e tolerância enquanto se acostumam com os hábitos e idiossincrasias do cônjugue. Discussões sobre assuntos importantes, tais como decisões financeiras, podem por em dúvida de que se casaram com a pessoa certa.

De acordo com Holmes e Rahe apud Atkinson (2002), qualquer mudança de vida que exige muitas readaptações pode ser vista como estressante. Numa tentativa de medir o impacto das mudanças de vida, eles desenvolveram a Escala de Eventos de Vida apresentada abaixo. A escala classifica os eventos de vida do mais estressante (morte do cônjugue) ao menos estressante (infrações legais menores).


Tabela de Escala de Eventos de Vida

Esta escala, também conhecida como Escala Holmes e Rahe de Avaliação de Adaptação Social, mede o estresse em termos de mudança de vida.

 Evento de Vida Valor
Morte do Cônjuge 100
Divórcio 73
Separação Conjugal 65
Pena de prisão 63
Morte de membro familiar próximo 63
Dano ou doença pessoal 53
Casamento  50
Demissão do emprego 47
Reconciliação conjugal  45
Aposentadoria 45
Mudança na saúde de membro familiar 44
Gravidez 40
Dificuldades Sexuais 39
Chegada de um novo membro na família 39
Gravidez 39
Dificuldades Sexuais   38
Chegada de um novo membro na família 37
Readaptação dos negócios 36
Mudança de condições financeiras 30
Morte de um amigo próximo  29
Mudança para um tipo diferente de trabalho 29
Execução de hipoteca  29
Mudança de atribuições no trabalho 28
Filho ou filha saindo de casa  26
Problema com parentes por afinidade 26
Esposa começa ou deixa de trabalhar  25
Início ou fim das aulas 24
Mudança nas condições de vida 23
Revisão de hábitos pessoas 23
Problemas com o chefe 20
Mudança de residência 20
Mudança de escola 19
Mudança de lazer 19
Mudança de atividades religiosas 18
Mudança de atividades sociais 16
Mudança nos hábitos de sono 15
Férias 13
Natal   12
Infrações legais menores 11

Embora eventos positivos muitas vezes exijam adaptação e, portanto, às vezes sejam estressantes, a maioria das pesquisas indica que os eventos negativos têm um impacto muito maior sobre a saúde física e psicológica do que os eventos positivos. Além disso, algumas pessoas não acham que as grandes mudanças ou as situações de pressão sejam estressantes. Pelo contrário, essas pessoas experimentam tais situações como desafios que as revigoram.


Conflitos internos

O estresse também pode ser causado por processos internos – conflitos não resolvidos que podem ser conscientes ou inconscientes. Ocorre conflito quando uma pessoa precisa escolher entre objetivos ou formas de agir incompatíveis ou mutuamente excludentes. Por exemplo, você quer ir a uma festa com os amigos, mas receia que não passará na prova de amanhã se não ficar em casa e estudar.

Mesmo que duas metas sejam igualmente atraentes – por exemplo, você recebe duas propostas de trabalho – você pode sofrer intensamente para tomar a decisão e sentir arrependimento depois de fazer sua escolha. Este estresse não teria ocorrido se tivessem lhe oferecido apenas um emprego. Para algumas pessoas, comprar roupa pode ser uma situação estressante por ter que escolher quais peças levar de acordo com o seu orçamento.